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Joana Machado
08-05-2011 00:00
 

José Duarte - uma voz é um instrumento?

Joana Machado - Sim. Um instrumento "camaleão".

JD - cumo se usa (mal) dizer neste caso escrever: sabe Música? cumo lida com tal situação?

JM - Sei. Não percebo a pergunta mas é o que me permite fazer as escolhas que faço, estudar ao piano e desenvolver o meu trabalho. Felizmente que no meu instrumento há uma ligação imediata entre a consciência e a criatividade potenciada pelas emoções e por isso activo a parte racional quando estou em "laboratório", para me auto-incutir determinados esquemas, sejam improvisatórios, interpretativos ou técnicos. No palco deixo-me ir, não há mais nada a fazer.

JD - autoriza que a tratem por músico jazz? porquê?

JM - Autorizo. Porque é essa a minha formação e o jazz é um território cada vez mais vasto. Na verdade sou um músico universal.

JD - será que jazz a atrai? porquê?

JM - Muitas razões, paradoxais até. Há uma inconstância que me agrada, nos discos e no acto de fazer música. Há também uma enorme liberdade presente, uma energia muito positiva e muito dinâmica. Tocar com músicos de jazz é, de certa forma, estar num "jogo". Sou competitiva. Invade-me a sensação de querer ganhar, de ter que me esmerar mais e mais. Jazz é também música para fazer sentir as pessoas. Acredito nisto.

JD - em linguagem jazz qual sua voz favorita? porquê?

JM - Não tenho uma favorita, mas várias. Betty Carter, Carmen McRae, Sarah Vaughan pelo experimentalismo e algum objectivo de articular as melodias como um instrumento faria. Ainda fico comovida com algumas versões de canções, mesmo após tê-las ouvido centenas de vezes. O Andy Bey pelo timbre lindo, o Blues, as "Roots" negras e a enorme entrega com que interpreta as canções. Actualmente, a voz que mais aprecio é a de Lizz Wright, pela sua grande simplicidade e bom gosto, num jazz que é também country, folk, pop...

JD - conhece a voz de Lauren Newton? opinião

JM - É uma experimentalista e utilizadora das "extended vocal-techniques". É interessante, mas confesso que não me emociona. Adoro a Meredith Monk, por exemplo, porque há muita poesia e beleza no seu trabalho. O seu cantar sugere-me ambientes visuais e muitas sensações diferentes. É uma "conceptual-artist" das artes performativas, uma verdadeira inspiração. Não conheço profundamente o trabalho da Lauren Newton e adoraria assistir a um espectáculo seu, mas quando a ouvi pela primeira vez pensei que se tratava de uma Meredith Monk desorganizada...

JD - sua opinião sobre maneira de cantar - hoje - ‘world music' de Maria João?

JM - A Maria João é uma força da natureza. Um talento sobrenatural e uma mulher corajosa. É um prazer "ouvê-la" J.

JD - a que se deve incluir (?) poetas cumo Ruy Belo, Nuno Júdice, Alberto Caeiro, Sophia de Mello Breyner, Herberto Hélder em um dos seus cds?

JM - Matemática. A poesia é uma das minhas paixões e eu queria trazê-la para o meu território profissional. Eu queria cantar em português e foi óbvio para mim o projecto de criar condições para, com um colaborador, juntar estas "vozes" tão diferentes através da música.

JD - considera esse cd um cd jazz? a que se deve seu (?) convite para tocarem nesse cd músicos jazz portugueses cumo Bruno Pedroso ou João Moreira?

JM - É um disco com muitas influências musicais, o jazz está também presente. O Pedroso é o meu baterista desde 2005 e é também o baterista do Trio do Abe Rábade. É um músico com quem gostamos muito de trabalhar pela sua versatilidade e espírito! O João Moreira tinha o som e a sensibilidade que eu e o Abe procurávamos para este disco. Tem uma forte linguagem tradicional mas com um discurso musical muito melódico e lírico. É também um trompetista experimentalista das novas tecnologias (usa pedais e efeitos).

JD - preocupa-a ter ou não ter swing?

JM - Nada mesmo.

JD - utiliza scat?

JM - Muito.

JD - sua opinião sobre o cantar de Sarah Vaughan e Roberta Gambarini e Annie Ross

JM - A Sarah Vaughan era uma malabarista da voz e das melodias. Uma improvisadora incrível, compreendedora das harmonias. Arrepiante, com um som enorme, era muito audaz na forma como reinventava as melodias. Um portento musical. A Roberta Gambarini é uma cantora actual com um som e um discurso musical antigos... canta muito bem mas não lhe descubro uma voz própria. É a minha opinião. A Annie Ross conheci pessoalmente durante um workshop em NY, a propósito de uma aula obrigatória de "Vocal ensemble" que frequentei durante o meu curso na New School, em que cantei repertório dos "Lambert, Hendricks & Ross". Ela tinha uma voz muito aguda e afinada e era virtuosa na interpretação daquelas melodias rápidas e cheias de notas, como aliás os outros dois membros. Confesso que não é uma área que aprecie, essa de atribuir letras às melodias e sólos do Miles ou do Parker, do tipo "Dizzy, Bird and Miles they did it their way..." (para o Boplicity, por exemplo).

JD - canta blues?

JM - Já cantei.

JD - tem concertado em clubes jazz portugueses ou no CCB, Casa da Música, Culturgest, Gulbenkian ou em festivais jazz portugueses?

JM - Sim. Hot, OndaJazz, Bflat, CCB, CCC, FunchalJazz, Festival de Jazz de Portalegre... entre muitos outros, desde que comecei a cantar ao vivo, em 1999.

JD - cumo aprecia Sara Serpa? é uma voz jazz?

JM - É uma voz-instrumento. Uma executante virtuosa no que respeita à música instrumental. Claro que é uma "voz jazz" dos tempos modernos. É uma voz do presente e do futuro, que se movimenta muito no contexto da música instrumental, por vezes hermética e difícil. Somos amigas, gosto muito dela.

JD - incluiu ‘Round Midnight' num seu cd - que outros grandes temas jazz ou do ‘American Song Book' usa?

JM - Os mais bonitos! J "When Sunny Gets Blue" (Fisher) e "Day Dream" (Strayhorn) gravei também no meu 1º disco (CRUde - TOAP 2006) e canto muitos outros, como "A Flower is a Lovesome Thing" (Strayhorn), "The Peacocks" (Rowles) ou "Low Key Lightly" (Ellington). Quando pratico, faço-o quase sempre sobre Standards e adoro cantá-los ao vivo sempre que posso.

JD - vive em exclusivo de seu cantar?

JM - Para alem de performer sou professora. Dou aulas de voz e de ensemble na escola do Hot e na Universidade Lusíada e aulas particulares de técnica vocal e improvisação.

JD - opiniões sobre seguintes vozes jazz portuguesas: Maria Anadon Maria Viana, Jacinta, Fátima Serro, Marta Hugon, Paula Oliveira, Kiko

JM - São cantores muito distintos, uns mais ligados à canção e outros à improvisação. É óptimo que existamos em grande número porque podemos ilustrar as imensas possibilidades da voz no jazz!

JD - aprecia Diana Krall? porquê?

JM - Não aprecio. Não me toca.

JD - o público jazz em Portugal é um bom público para vozes?

JM - É. Acho que em todo o mundo. A voz é o instrumento com o qual é mais fácil relacionarmo-nos. Que comunica directamente connosco e nos conta uma história, mesmo que sem palavras, completado por um corpo, um gesto, um olhar...

JD - compõe?

JM - Já compus mas, por agora, abandonei as minhas canções.

JD - será que o futuro do jazz será o jazz cantado?

JM - A voz está hoje mais presente em todas as vertentes da música improvisada, por isso talvez se possa adivinhar que os vocalistas venham a ser cada vez mais requisitados nas formações habitualmente "instrumentais". O que é certo é que os cantores estão musicalmente mais competentes e criativos nos dias que correm.

JD - obrigado Joana Machado


 
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