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José Menezes
02-05-2006 00:00
 

José Duarte - É um dos primeiros licenciados em Jazz em Portugal? Como se consegue uma licenciatura em Jazz no país que habitamos? 

 José Menezes -  São 7 os primeiros (e até agora únicos) licenciados em solo pátrio. 

 Manuel Marques-Saxofone

Aurelien Lino-Piano Diogo Vida-Piano Mário Santos-Saxofone Rui Teixeira-Saxofone Rogério Ribeiro-Trompete José Menezes-Saxofone  É verdade. Sou um dos 7 primeiros licenciados em Jazz no país. Tenho muito orgulho nisso, não pelo “canudo” em si (em Si bemol no meu caso…) mas pela teimosia que representou tirá-lo. A minha “licenciatura” começou há muito tempo quando comecei a estudar Jazz como autodidacta numa época e numa cidade (Porto) onde não havia informação nenhuma sobre o assunto. Há 4 anos, quando soube que iria ter início este curso, quis candidatar-me. Falei com o Carlos Azevedo, o “inventor” do curso. Os meus estudos anteriores foram equiparados a bacharelato. Assim pude entrar directamente para o último ano do curso (4.º).  JD - Os restantes licenciados são mais velhos ou mais novos? Que experiência Jazz têm? E você?  JM - Todos os outros licenciados são mais novos. Eles pertencem a uma ou mesmo duas gerações (musicais) seguintes à minha. Na verdade quase todos estes músicos (o Aurelien Lino (piano) é a excepção, creio eu) já estudavam Jazz anteriormente ao seu ingresso no curso. Em muitos de nós existia já uma grande experiência e contacto com o Jazz como nos casos do Mário Santos, Manuel Marques, Rui Teixeira ou eu próprio. Acho que é importante referir a Escola de Jazz do Porto na formação desta geração de primeiros licenciados já que foi lá que alguns deles receberam a primeira formação em termos de Jazz e partiram para o contacto profissional com este estilo. Fiz parte do grupo de músicos que criou essa escola e do qual faziam com centro nessa escola, que funcionava nas instalações anexas a um restaurante, propriedade da família Barreiros, desenvolveu-se, pela primeira vez no Porto, uma atitude pedagógica do Jazz que, a meu ver, veio proporcionar o posterior aparecimento de estruturas como a Big Band de Matosinhos ou a licenciatura de que agora falamos. Quanto à minha relação com o Jazz, ela teve início há muitos anos pelo contacto com os grupos portugueses da altura – o Zanarp, o Plexus, e Araripa – e por influência de 2 saxofonistas portugueses, dois músicos fantásticos que me fizeram querer tocar o instrumento: Rão Kyao e José Nogueira. Comecei a tocar regularmente passado 3 ou 4 anos depois de me iniciar. Tocava e ensaiava com outros músicos do Porto numa absoluta carência de informação e de princípios orientadores de estudo do Jazz. Claro que havia aquela coisa das escalas e dos arpejos mas nenhum de nós sabia como obter a sonoridade que queríamos e o grande método era “tentativa e erro”. Durante anos, tudo no campo musical era descoberto como se fossemos nós que o tivéssemos inventado. Ainda agora, nas aulas do curso, tive um prazer enorme em ver sistematizados processos que eu próprio tinha “descoberto” (pensava eu…) há alguns anos atrás. Esta radical diferença entre a aprendizagem do Jazz na altura em que comecei e a actualidade creio ter sido a razão principal que me levou a tirar a licenciatura (talvez como que uma desforra da ausência de informação da altura). JD - Que vantagens lhe traz a licenciatura em Jazz neste país?   JM -  As vantagens de, no meu caso, ter tirado a licenciatura são de vária ordem e de natureza diferente. A não menos importante é, sem dúvida, contactar, conhecer e tocar com jovens músicos de Jazz, com uma energia criadora inacta, virados para linguagens contemporâneas, com vontade de continuar a estudar, compor e tocar, coisa que tende a decrescer nas pessoas da minha geração. Outra das vantagens é a de poder retirar uma perspectiva pedagógica desta licenciatura. Ou seja, “aprender a ensinar”. Conhecer novas formas de passar a informação. Novas formas de raciocinar sobre problemas musicais e de os explicar aos nossos próprios alunos. Esta perspectiva é-me especialmente importante já que sou director pedagógico da Escola de Jazz de Torres Vedras. Por isso tenho o maior interesse em estar em sintonia com a abordagem pedagógica, programas e currículos desta licenciatura já que alguns dos nossos alunos estão a preparar-se para os testes de admissão no curso de Jazz da ESMAE. De resto, um dos nossos ex-alunos de Torres Vedras está neste momento no 2.º ano da licenciatura, tendo ganho o prémio de melhor solista na Festa do Jazz deste ano. Outra vantagem será a de poder vir a conferir consistência legal à direcção pedagógica da Escola de Jazz de Torres Vedras.  JD -  Uma licenciatura precisa de uma avaliação. Neste caso, da formação superior em performance-jazz quem lha fez?  JM -  Como noutras licenciaturas a nota final provem dum processo mais ou menos complexo de médias, percentagens e essas coisas. Confesso que não tenho isso presente mas  essa informação creio estar disponível no site da ESMAE. A avaliação é contínua a todas as disciplinas com a particularidade de, à disciplina de instrumento, haver também um concerto final para fins de avaliação. É um recital aberto ao público, com um repertório preferencialmente original e com uma formação à escolha do aluno (um quinteto, no meu caso…) e avaliado por um júri constituído pelo Director do Curso e mais 2 professores, sendo um deles o do instrumento do aluno avaliado. JD - Creio que o mundo do Jazz em Portugal vive neste momento histórico e nesta área de formações, científicas e artísticas, uma fase de transformação que irá levar alguns poucos anos mas que chegará daí uma certa confusão que de tal resulta assim: como é que um músico poder ser licenciado por outro músico que sabe menos que ele e outra solução não há, pois agora os mais oficialmente dotados são vocês os 7 licenciados em Jazz. Só vocês poderão avaliar conhecimentos Jazz de candidatos à licenciatura em Jazz. Se assim não for continua tudo “desarrumado” e a sabedoria avançará muito, muito devagar se avançar... Verdade ou mentira? 

JM- Mentira. Temos de ter presente várias coisas: 

1.º) Um músico não é licenciado por outro músico mas por todo um grupo de músicos/professores. O que quer dizer que –mesmo que fosse o caso- de cada um dos músicos/professores poder “saber menos”, (noção que também pode ser discutida pois existem muitas áreas específicas de“saber”) o somatório de ensinamentos ministrados por esse grupo de professores será sempre maior que os conhecimentos de cada professor. 

2.º) Na estruturação de um curso, mais importante ainda do que “saber mais ou saber menos”  é a forma como se organizam/estruturam/planificam os conhecimentos a serem passados. Isso será determinante  para a qualidade pedagógica da escola em questão.

Os professores que, na ESMAE, estruturaram a licenciatura, para além de serem competentes músicos de Jazz, debruçaram-se, como o seu projecto exigia, sobre a estruturação dos currículos, programas e cargas horárias. Daí o sucesso inquestionável dos resultados já apresentados e patentes em algumas edições da Festa do Jazz bem como no aparecimento de muitos jovens músicos de qualidade.  3.º)  Não esquecer que os músicos/professores envolvidos no projecto da licenciatura em Jazz da ESMAE são, quase todos, eles próprios licenciados em escolas ou universidades no estrangeiro. Carlos Azevedo em Inglaterra, Michael Joussein em França, Pedro Guedes, Nuno Ferreira, Laurent Filipe, Michael Lauren, Paulo Perfeito nos Estados Unidos, etc. Estes músicos não trouxeram consigo unicamente os conhecimentos mas também o modelo de como os transmitir.  JD - quando um aluno prepara um trabalho para seu doutoramento em jazz,  quem o poderá orientar: um músico que apesar de ser um muito bom jazzman não tem qualquer tipo de formação académica, nem sequer é licenciado?  JM-Mais uma vez devemos ter em atenção a área específica do doutoramento. Os temas de doutoramento podem abranger áreas muitíssimo diferentes. Se estivermos a falar de áreas relacionadas com a História do Jazz será do maior interesse o orientador do doutoramento ser um estudioso do assunto ainda mais do que um consumado improvisador. Se o assunto se orientar para a pedagogia do Jazz vai ter de estar envolvido um pedagogo de reconhecido mérito. Se estiverem implicados temas técnico-teóricos relativos a improvisação ou composição, aí sim, teremos de ter um solista/compositor de primeira linha. Se for este o caso, e repito, se for este o caso, estarei em completo desacordo com o seu parágrafo :“apesar de ser um muito bom Jazzman não tem qualquer tipo de formação, nem sequer é licenciado”.Se o Jazzman é bom conforme diz, tem, seguramente uma sólida formação a nível harmónico, melódico e especialmente rítmico e emocional. E se é bom o nosso Jazzman estruturou para si próprio um método de estudo e de desenvolvimento que gerou sucesso musical. Mais ainda, se o Jazzman é bom, fará uma música pessoal e imediatamente reconhecível como sendo dele. Objectivo máximo de um artista, certo? Então é perfeitamente legítimo, em minha opinião, que outros estudantes queiram (e devam) aprofundar o conhecimento desse músico e, através dele, o do próprio Jazz através de uma tese de doutoramento. Creio, José Duarte, que neste momento e neste país as contradições que possam existir na estruturação de cursos e licenciaturas na área do Jazz não são senão  “dores de crescimento” de um organismo ainda jovem mas que irá vingar, sem dúvida.  JD - Que diferenças acha que existem entre uma licenciatura científico-musicológica e outra na vertente performativa?  JM - Se se refere às licenciaturas provenientes das Universidades ou dos Institutos Politécnicos devo dizer-lhe que ambas são académicas apenas provenientes de sistemas cada vez menos diferenciados. De referir, para quem não saiba, que é o Instituto Politécnico do Porto que engloba a Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo que confere a Licenciatura em Jazz.

As diferenças entre ensino Universitário e Politécnico têm vindo a esbater-se desde 1988 altura em que os Politécnicos passaram a estar autorizados a conceder um grau superior (bacharelato). Em 1998 os Inst. Politécnicos passaram também a poder conceder licenciaturas tal como as Universidades. Com a próxima entrada em vigor do Protocolo de Bolonha estes dois sub-sistemas de ensino superior serão totalmente equiparados dando cabo do charme discreto do “andar na Faculdade” tão ao gosto do antigamente…Hélas…o “pogresso”… 

 

JM - Uma pergunta para si (espero que me permita liberdade de troca dos papéis):  porque acha que, existindo primeiramente, estruturas de ensino do Jazz em Lisboa, a licenciatura tenha aparecido primeiramente no Porto?

JD – se se refere à Escola de jazz do HCP ela deixa e deixava (deixará?) muito a desejar em vários aspectos desde o custo das propinas até à qualidade de ensino com profs no ano seguinte a acabarem o curso e quase nula e sectária formação musicóloga. Permita-me que cite Vilas Boas que gostava nada da Escola do Hot: ‘andamos prá aqui a ensinar guitarristas que depois se passam para o rock’ – a afirmação está datada, sabe-se de como a Música ‘ligeira’ portuguesa ganhou com o comportamento musical dos ex-alunos da Escola do Hot, mas hoje as Escolas proliferam na área de Lisboa (e na do Porto?) e o HCP, de Clube com Escola, passou a Bar de Escola. O prémio ‘Almada’ do ex-IPAE hoje IA (5.000 contos na altura há muito poucos anos) foi todo consumido pela Escola como se o jazz só viva de músicos e dispense ouvintes que se querem cada vez melhores 

numa floresta deserta quando uma árvore cai não faz barulho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 
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