jazzportugal.ua.pt
HOME CONTACTOS BUSCA SUBSCRIÇÃO
 
agenda
media
escritos e entrevistas
músicos
jazzlinks
  escritos  ::  entrevistas  ::  trabalhos alunos UA  ::  e mail e fax  ::  riff  ::  Jazz de A a ZZ

escritos e entrevistas > lista de entrevistas > ver entrevista
Sérgio Carolino
01-06-2004 00:00
 
Onde nasceu e há quanto tempo? Nasci em Alcobaça a 26 de Outubro de 1973. Carolino da Mãe ou Carolino do Pai? Apelido raro! Carolino da parte do Pai. É raro, mas só em Alcobaça conheço mais três famílias com esse apelido. Como se decidiu pela tuba e porquê? Na minha família, só o meu avô, Fernando Carolino, tinha sido músico na Banda de Alcobaça. Era o homem do ritmo! Tocava caixa. O meu pai decidiu inscrever-me na Escola de Música da Banda de Alcobaça, onde comecei por experimentar o fagote. Eu queria um instrumento grave e a sonoridade do fagote agradava-me imenso. Infelizmente ou felizmente, não conseguia conter os lábios para dentro, na tentativa de segurar e fazer vibrar a palheta. O professor sugeriu então que experimentasse a tuba. Havia uma tuba em mi bemol parada na sala de ensaio e decidi experimentar. Mal me deu o bocal fiz de imediato alguns sons e, mais tarde na tuba ainda saíram melhor! Foi amor ao primeiro som! Que prática e estudos musicais tem? Tendo tido sempre uma aprendizagem mais para o lado do autodidacta (“ o melhor professor somos nós próprios”), só mais tarde entrei para o Conservatório Superior de Música de Genebra, Suíça (com uma bolsa de estudo dos meus pais :-)), isto dado o facto de a tuba não ser considerada um instrumento “nobre” tal como é o piano, o violoncelo e o violino!..., não consegui apoio algum por parte da antiga Secretaria de Estado da Cultura. Em Genebra estudei na classe de tuba do professor Pierre Pilloud (tuba principal da Orquestra da Suisse Romande) e música de câmara com o professor / compositor Kurt Sturzenegger. Estudei também em masterclasses com os mais prestigiados professores e tubistas de renome internacional tais como: Øystein Baadsvik, Mel Culbertson, Harvey Phillips, Anne-Jelle Visser, Michel Godard, Walter Hilgers, Enrique Crespo, Gene Pokorny, David Taylor e Roger Bobo. Foi instrumentista na Música precisa (Bernstein dixit)? Fui, sou e continuarei a ser... Actualmente sou tubista principal da Orquestra Nacional do Porto, professor da classe de tuba e música de câmara na Academia Nacional Superior de Orquestra (Lisboa) e Artista Yamaha. Quais os compositores que mais utilizam tuba nas suas peças? Richard Wagner (Alemanha), Sergei Prokofiev (Rússia) e Silvestre Revueltas (México), são entre muitos outros, dos que mais se destacam! Eles adoravam e conheciam o verdadeiro potencial da tuba. Provavelmente, só nunca escreveram um concerto para tuba e orquestra, porque os tubistas das suas orquestras nunca os abordaram para tal ou mostravam qualquer interesse nisso. Que prazeres específicos encontra no uso musical da tuba? A tuba é o instrumento que mais evoluiu nos últimos 20 a 30 anos, tanto em termos de construção como em termos técnico-musicais. Actualmente, é um dos instrumentos quase indispensáveis em qualquer ensemble e nos mais variados estilos de música. Um dos grandes “prazeres” no uso da tuba, é sem dúvida alguma o SOM por ela produzido. Sendo dos instrumentos com mais versatilidade em termos sonoros e com uma agilidade bastante considerável, possui ainda um registo de quase 6 (seis) oitavas, o que faz dela, um instrumento cobiçado e dos mais preferidos por compositores actuais de destaque a nível internacional. Que dificuldades especificas encontra no uso musical da tuba? Uma das dificuldades de tocar tuba, é o controlo da respiração, o que demora alguns anos a conseguir. Outras das dificuldades é a postura, devido ao facto de ser um instrumento de grandes dimensões, corre-se o risco de arranjar alguns problemas de saúde, sobretudo em idades onde o corpo se encontra em fase de crescimento. Tocar partes solistas é também bastante difícil pois, mesmo que a tuba toque no seu registo agudo, muitas das vezes continua mais grave ou na mesma altura dos sons dos outros instrumentos, o que faz com que o publico ouvinte não sinta a voz solista ou leader, e se perda no meio dos outros sons!... Como chegou ao Jazz? A minha chegada ao Jazz começou à alguns anos atrás; o “bichinho” do Jazz foi sobretudo adquirido devido a um dos grandes saxofonistas portugueses, o professor / maestro Victor Santos (antigo professor de saxofone na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa), aquando da sua estada como maestro da Banda de Alcobaça. Alcobaça a par do seu Mosteiro imponente é também conhecida por ser uma cidade cheia de artistas (músicos, pintores, escultores, poetas, ...). Com alguns dos meus grandes amigos, que partilhavam (e partilham) a adoração pelo Jazz, começamos um projecto que dava pelo nome de “Projecto Dixieland”. Dessa banda faziam músicos que actualmente continuam a tocar comigo em vários projectos, casos de: Mário Marques (saxofone tenor) e Ruben Santos (trombone). Com o grupo, alem de tocarmos noites a fio num bar em S. Martinho do Porto, tocamos no 1º Festival de Jazz de Valado dos Frades, hoje em dia, grande festival e provavelmente, como diz o meu grande amigo e director artístico do festival, Adelino Mota, “o maior Club de Jazz português”:-) ... Existia também um bar em Alcobaça, que organizava bastantes concertos de jazz. Dava pelo nome de Bar Ben. Por lá passaram grandes nomes do jazz nacional entre 1985 e 1994. Até o grande Wayne Shorter, aquando das suas férias na Azambuja (na altura, casado com uma portuguesa!), chegou a tocar no Bar em Jam Sessions sem nunca ninguém saber ou desconfiar de quão ilustre e genial músico de jazz Norte-americano se tratava! Lembra-me de o ouvir tocar e de ficar maravilhado com o seu SOM ... Já na Suíça a estudar, fui convidado a tocar com várias bandas de dixieland, no ensemble de jazz do trombonista / compositor Jean-François Bovard “La Compagnie d’Eustache”. Toquei com algumas Big Bands e num dos concertos solei ao lado de um convidado especialíssimo, o clarinetista baixo francês Louis Sclavis. De regresso a Portugal para fazer parte da Orquestra Metropolitana de Lisboa e ser professor na Academia Nacional Superior de Orquestra, fui um dos fundadores do grupo “Estardalhaço da Geringonça”, actuando desde então um pouco por todo o país em variadíssimos eventos, festivais e programas de televisão. Em 2000, gravamos o primeiro registo fonográfico com edição de autor, ao qual demos o nome de “Old Tradition, New Ignition”. Desde então tenho participado em vários projectos, com especial destaque para a “Workshop Big Band” no Festival de Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian - ACARTE - sob a direcção de Robert Sadin. Nesse concerto tocamos temas dos álbuns de Miles Davis com a Gil Evans Orchestra (“Sketch of Spain” e “Porgy & Bess”) tendo como solistas Tom Harrel e Tim Hagans, dois trompetistas fabulosos. É bom tocar com o G e B, não é? Tocar com o G (Mário Delgado) e com o B (Alexandre Frazão) é mais do que bom, é ÓPTIMO. É tudo o que um músico pode sonhar ou desejar. Eles são fantásticos em vários aspectos, tanto em termos artísticos como humanos. Tornaram-se grandes amigos. Tenho aprendido muito com eles. Sinto-me um homem de sorte por ter o prazer de fazer e criar música ao lado e com eles. Prevejo que será uma relação de muitos e bons anos... É um trio que gravou já muito rodado em palcos ... Sim. O trio tocou bastantes vezes antes de entrarmos no estúdio, mas não as vezes que desejávamos! Tocámos em vários festivais e clubes de jazz tais como: “Braga Jazz 2003”, Festival de Jazz de Valado dos Frades”, “Hot Club”, “1º Festival Internacional de Tuba de Vigo” (Espanha), entre outros locais. Nunca experimentou as dificuldades/prazeres de Julius Watkins ou Tom Varner ao tocar trompa/french horn? Também o sabe tocar? A trompa é um instrumento totalmente diferente da tuba. As únicas semelhanças são o facto de serem de tubagem cónica e de metal. Devido a essas diferenças nunca toquei ou experimentei, mas é um instrumento que, pessoalmente, adoro. Quem não conhece a famosa banda dos anos 50 de Julius Watkins que dava pelo nome de ‘The Jazz Modes’ ou os solos de Tom Varner nas orquestras de Gil Evans e Gerry Mulligan ou nos seus discos a solo. Em 1996 outro trompetista de jazz, Vincent Chancey, lançou um álbum a convite de John Zorn com o título ‘Next Mode’ em homenagem a Watkins. Fraseia jazz com perfeição e swing tanto quanto a tuba é conhecida no jazz que é quase nada. O fraseado aprende-se? O fraseado aprende-se em fases distintas: 1ª Fase: a audição de discos 2ª Fase: a imitação 3ª Fase: a criação ou desenvolvimento de uma linguagem ou fraseado pessoal (o que pode demorar anos ou mesmo uma vida a conseguir!!!) E a improvisação, ensina-se? Muito da improvisação depende essencialmente do talento, habilidade e cultura de cada indivíduo. Como tudo na vida, nada vem do nada. Tudo tem uma aprendizagem, um desenvolvimento uma abordagem especifica. Estou convicto que o melhor é juntar o talento e a habilidade ao estudo profundo do jazz (história do jazz, harmonia) e da improvisação. Garanto-vos, é uma combinação explosiva!!! Longe vão os tempos da música jazz em / de New Orleans com a tuba a antecipar-se historicamente ao papel do cbaixo. Conhece jazz antigo? Como no projecto de qualquer casa, deve-se começar por estudar o local onde será construída. Concluído o projecto, inicia-se a construção que começa com a escavação do terreno, a colocação dos alicerces e por aí adiante até chegarmos à cobertura. O ambiente interior e exterior da casa vai estar em conformidade com o lugar e com o projecto. Então o resultado é único e indissociável de todas as fases precedentes. O jazz antigo é precisamente o “escavar do terreno” e o colocar dos “alicerces”, ou seja, a BASE de tudo, se possível sólida. Como devem calcular é extremamente importante. É preciso conhecer e explorar um pouco. Conheço bastante bem o genial Louis Armstrong com a sua banda “Hot Seven” com Pete Briggs na tuba, a famosa Bob Scobey’s Frisco Band com o grande tubista e eufonista Rich Matteson (homem de grande destaque e importância na historia da tuba no jazz). A banda do trompetista Bix Beiderbeck, os incontornáveis “Dukes of Dixieland”, os velhinhos mas inimitáveis “Preservation All Jazz Band”, o Génio do clarinetista Benny Goodman assim como Jelly Roll Morton, o mestre do Ragtime! A partir de 1923, a tuba foi deixada um pouco de parte dos ensembles de jazz, devido ao aparecimento do contrabaixo de cordas no jazz, graças à sua técnica de “Walking”! Só entre os anos 60-70 voltaria a ressurgir em formações como as de Gil Evans, Gerry Mulligan, Miles Davis, ... . Quais os tubistas jazz que conhece? Algum o influenciou? Conheço bastantes tubistas de jazz e as suas influências no meu percurso musical foram variadas. Passo a enumerar vários tubistas de jazz, todos diferentes, todos grandes músicos: No campo do jazz tradicional aparecem nomes como “THE GREAT” Kirk Joseph na famosa Dirty Dozen Brass Band, Forgotten Souls e na Treme Brass Bands e o homem do Be-Bop no Sousafone, Matt Perrine (New Orleans Nightcrawlers e Ray Anderson Pocket Brass Band). Em Nova York o genial Howard Johnson brilhava ao lado de Lee Morgan (trompete), Hank Mobley (saxofone tenor), e mais tarde nas bandas “Gravity” - ensemble de jazz de tubas, George Gruntz Concert Jazz Band, Frank Strozier assim como na banda de Taj Mahal. Bill Barber tem especial destaque na famosa Gil Evans Orquestra e na banda de Miles Davis nomeadamente no seu magnífico álbum “Birth of the Cool”. O seu brilhante solo em “Buzzard Song” no Porgy & Bess de George Gershwin, figura entre os mais conhecidos da história da tuba no jazz. Nos anos 50, um jovem de nome Ray Drapper, lança-se no jazz gravando dois LP’s, tendo na sua banda nomes como os saxofonistas John Coltrane e Jackie McLean. O grande Bob Stewart surge como pioneiro no Post-Bop e no Funky inserido nos grupos de Arthur Blythe, Christof Lauer e Wolfgang Pusching, Gravity, Lester Bowie Brass Fantasie, Taj Mahal, Ted Nash, Herb Robertson Brass Ensemble e na Big Band de Nicholas Payton. Ainda na geração de pioneiros da era do Be-Bop temos Don Butterfield na banda do trompetista Clark Terry e ao lado do grande organista Jimmy Smith. A ouvir, o espectacular álbum de 1964, “The Cat”. Um dos tubistas que mais me marcou e que continua a ter uma grande influência no meu fraseado, é o Dave Bargeron. Bargeron é um verdadeiro virtuoso. Tocando trombone, tuba e eufónio em diversas bandas das quais se destaca a famosa “Blood, Sweat & Tears”, a George Gruntz Concert Jazz Band, Rabih Abou-Khalil, nas Big Bands de Bob Mintzer e Mingus. A sua mais recente formação original dá pelo nome de “TubaTuba” ao lado do tubista francês Michel Godard com dois CD’s gravados para a editora Alemã Enja. A ouvir, o memorável solo em tuba no álbum “Blood, Sweat & Tears Live & Improvised” na música “When I Die”!... Outros tubistas de jazz norte-americanos de raro virtuosismo são o Earl McIntyre e o Joe Daley assim como outro dos meus ídolos, Marcus Rojas com as bandas: Kamikaze Ground Crew, Henry Theadghill, “Spanish Fly” com Steve Bernstein e a Brass Band Les Miserables! Na Europa surgem nos anos 80-90, tubistas de jazz mais vanguardistas, casos de Oren Marshall (Inglaterra), Marc Steckar, François Thuillier, Didier Havet e Michel Godard (França) este último com uma discografia imensa! Stein-Erik Tafjord (Noruega), Michel Massot (Bélgica), Pinguin Moschner (Alemanha), János Mázuras (Hungria), Jon Sass (Áustria) da famosa Vienna Art Orchestra, Giancarlo Schiaffini (Itália), leader da Italian Instabile Orchestra. Já pensou em organizar um ‘Brass Combo’ sem trompetes ou com elas? Tenho vários Brass Combos: O Ensemble Português de Tubas “TUBOPHONIA”, fundado por mim e com alguns dos meus alunos tem uma vertente jazzistica que dá pelo nome de “TUBOPHONIA” Jazz Ensemble e é composto por 5 tubas e uma secção rítmica (baixo eléctrico, guitarra eléctrica, banjo e cavaquinho brasileiro e bateria. Músicos como Claus Nymark (trombone, eufónio) e Alex Frazão (bateria) já tocaram com o ensemble! Estreei a cerca de duas semanas no Festival de Jazz de Valado dos Frades, um novo projecto que dá pelo nome de “Multiphonic Pocket Band”. A banda é composta por João Moreira (trompete e melofone), Mário Marques (saxofones), Ruben Santos (trombone) e Bruno Pedroso (bateria). É uma banda a todo o GAZ!:-) Vive para a Música (é apenas suposição minha) e vive da Música? TGB tem tido sucesso e reconhecimento em palco e agora em disco? Vivo totalmente para a música, mas também vivo da música; Os TGB têm tido um enorme sucesso por todos os palcos onde temos tocado assim como o disco “TGB Tuba-Guitarra-Bateria” da editora Clean Feed, tem recebido as melhores e maiores criticas nacionais e internacionais. Tomo a liberdade de contar um dos mais engraçados episódios aquando de um concerto de grande sucesso realizado no “Festival Paredes de Coura” no Jazz na Relva, onde menos esperava e do qual saí surpreendido pela aceitação e euforia por parte do público presente. Foi um público maravilhoso. Nunca me esquecerei de na introdução do meu tema “Lili’s Funk”, enquanto tocava, começaram todos a marcar o tempo com palmas, situação que pensava que só acontece nos concertos das bandas pop - rock. Ficou um ambiente espectacular!!... No final, alguns jovens abordaram-nos para pedirem autógrafos, felizes e muito agradados com o nosso concerto, tendo mesmo um deles, pedido se lhe poderia oferecer o bocal como recordação :-) Sérgio Carolino Telm: (00 351) 96 28 33 260 E-mail: sergiofbc@hotmail.com http://sergiocarolino.com.sapo.pt

José Duarte
 
  Escritos e entrevistas  
 
   
Clubes  
Cantaloupe Café
 
   
Concertos  
 
   
Festivais  
 
   
Universidade de Aveiro
© 2006 UA | Desenvolvido por CEMED
 VEJA TAMBÉM... 
 José Duarte - Dados Biográficos