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Escrito falado com João Barradas acordeonista jazz
14-06-2017
 

José Duarte – em que anos ganhou o troféu mundial de acordeão? considera assim seu conhecimento e reconhecimento internacionais?

 João Barradas – Eu ganhei o Troféu Mundial de Acordeão em 2007 e 2010. Tinha 15 e 18 anos, respectivamente. Era muito jovem e este prémio permitiu que a minha música chegasse a mais pessoas. Hoje tenho a consciência de que abriu muitas portas. Eu gosto de pensar nos concursos como algo que pode acontecer muito naturalmente no desenvolvimento do músico. Não é condição "cine qua non" para que se tenha um determinado nível ou notoriedade no meio. É sim, uma forma bastante simples de poder mostrar a sua música a vários produtores e tocar nos mais importantes festivais de música. O Troféu Mundial de Acordeão permitiu que entrasse no circuito internacional do acordeão. Nunca o fiz pelo reconhecimento que poderia aparecer a posteriori, foi um objectivo que tinha desde criança e tornei um sonho pessoal em algo real.

 

JD –para seu CD ‘Directions’ convidou Greg Osby e Sara Serpa e Gil Goldstein entre outros – porquê este e em particular GG outro acordeonista

JB - O Greg Osby foi a escolha mais óbvia. O Greg tornou-se um dos meus grandes mentores. Aprendi com ele e partilhamos vários pontos comuns na música, no meio musical e até questões pessoais. Antes de termos iniciado a nossa relação pessoal a sua música e forma peculiar de improvisar tinha-me chegado através dos álbuns e concertos do Jack Dejohnette Special Edition, que contava com músicos como Gary Thomas, Lonnie Plaxico ou Pat Metheny. O seu álbum "Zero", com Eric Harland e Jason Moran, é um dos álbuns da minha vida. Portanto, ter o Greg Osby como saxofonista e produtor deste CD faz todo o sentido. Ainda com a curiosidade do "Directions" ser co-editado pela sua Editora - Inner Circle Music e pela Nischo, de Carlos Martins e Constanze Juergens. O Gil Goldstein é, para mim, o acordeonista mais importante no Jazz "Mainstream" americano da atualidade. Tem uma percurso invejável como arranjador e produtor para nomes como: Pat Metheny, Joe Lovano, Bobby Mcferrin, Wayne Shorter, entre muitos outros. Sempre que ouvimos acordeão nos discos destes artistas está la o Gil Goldstein. Ele escreveu o único tema do disco que não é um original meu. "Tiling The Plane" é uma espécie de fantasia sobre a grelha harmónica do "Giant Steps" de John Coltrane. Ter o Gil num CD meu é mais do que um privilégio, é ter a história do instrumento nesta música na primeira pessoa. Para além das suas qualidades como músico, é uma das pessoas mais positivas que conheço. A Sara Serpa é a única cantora do meu primeiro álbum, a escolha foi óbvia uma vez mais. O seu primeiro álbum - "Praia" - também na Inner Circle Music, foi um dos discos portugueses que mais tocou em minha casa e no carro dos meus pais. Foi muito bom poder escrever a pensar na voz da Sara e fiquei muito contente com o resultado final.

 

JD – comente convite a Sérgio Carolino para consigo trabalhar em ‘Surrealistic Discussion´quando tinha 19 anos de idade civil? que idade tem hoje?

JB –Neste momento tenho 25 anos de idade. Nasci a 03 de Fevereiro de 1992. O convite surgiu em 2010, tinha eu 18 anos: o Sérgio Carolino tinha-me ouvido tocar anteriormente e encontrámo-nos num Festival de Jazz aqui em Portugal. Perguntou-me se estaria interessado em criar um duo com tuba e acordeão. E assim foi... Um dos maiores privilégios artísticos que já tive e um projecto que mudou a minha carreira. O Sérgio é um dos músicos que mais admiro desde sempre. É um exemplo de seriedade, integridade, força de vontade e trabalho. Poucas pessoas no mundo têm estas características. Estas condições fazem com que se tornem em individualidades do mundo da música e da arte. Quando o nível técnico está ao mesmo nível do conhecimento da música, quando existe um suporte intelectual coerente, quando a seriedade pela música e a vontade de ajudar os outros se encontram não existe falha possível. É uma receita de sucesso. E o Sérgio Carolino é um dos poucos que tem estas características. 

 

JD – cumo ou com quem descobriu a Música jazz?

 

JB – O Jazz chegou-me através do "Live At The Blue Note", uma colecção de 5 CDs do Keith Jarrett. Depois de Jarrett seguiram-se vários nomes, entre eles: Steve Coleman, Wynton Marsalis, Kurt Rosenwinkel, Branford Marsalis, Andrew Hill, Lester Young, Charlie Parker, Sonny Stitt, Tommy Gumina, John Coltrane, Ambrose Akinmusire, Herbie Hancock, Kenny Kirkland. O Richard Galliano também contribuiu de uma forma decisiva para o meu primeiro contacto com o Jazz, embora depois tenha preferido outro tipo de estética e improvisadores. 

 

 

JD – conhece bem a linguagem bebop jazz? Parker e sua multidão de ‘discípulos’?

 

JB – É impossível não estudar "bebop" e querer improvisar numa linguagem actual. Não só porque esta forma de pensar música trouxe um discurso improvisado com um "voice leading" diferente mas também porque os temas tocados nesta altura consolidaram o programa do Jazz. Tocar por cima das gravações de Charlie Parker moldou a minha obsessão com o sentido de tempo: a sua estabilidade, elasticidade e negociação com uma secção rítmica. Recebi o seu omnibook ainda na minha adolescência mas depressa percebi que teria de os aprender de ouvido e ter a certeza que tocava as notas certas. Não só fiz isso como transpus muitas das gravações para os 12 tons de forma a aprender a linguagem em posições mecânicas bastante estranhas ao meu instrumento. De toda a escola bebo saliento os dois músicos que mais me influenciaram: Dexter Gordon e Sonny Stitt.

 

 

JD – em que salas ou clubes jazz já tocou em Portugal e no estrangeiro? acha que o público português sabe jazz?

 

JB – Em Portugal já toquei na fundação Calouste Gulbenkian (Sala principal), Centro de Cultural de Belém (Sala principal), Casa da Música (Sala Principal), Festa do Jazz do Teatro S. Luiz, Funchal Jazz Festival, Hot Clube de Portugal, Culturgest e na maioria dos festivais de Jazz portugueses. No estrangeiro já toquei no circuito profissional de New York aos maiores Festivais na Europa como "Munster Jazz Festival" (Alemanha), Sopot Jazz Festival (Polónia) ou Aix En Provence Festival (França). Eu acho que existe uma enorme vontade do publico português em não só querer conhecer mais desta música como perceber essa música no seu próprio país, feita com portugueses. Sinto-me bastante acarinhado no meu próprio país, o que contribui, bastante, para uma certa felicidade sempre que toco por cá. O público sabe o que quer ouvir, temos boas pessoas à frente das programações, existe boa crítica em Portugal, existem muitos músicos por descobrir. Claro que nem tudo está bela e problemas existe em todas as secções da arte mas neste momento sinto que se está a fazer, e muito, para que esta música e os músicos portugueses tenham outro tipo de possibilidades.

 

 

JD – porque escolheu Art Van Damme –acordeonista americano nascido na Europa – cumo uma das suas preferidas audições?

 

JB – O Art Van Damme era um acordeonista que sabia improvisar e bem. Essa a característica que mais me liga à sua música. Mas não só, ele soube enquanto performer perceber que teria de sair do dito "mercado do acordeão". Foi um inovador nesse sentido. O acordeão foi muito respeitado nos anos em que ele estava no activo. Mas a figura chave enquanto acordeonista e a nível pessoal foi o Tommy Gumina. O Tommy Gumina foi até hoje o acordeonista que ouvi com melhor sentido de Swing e utilização dos Blues na sua linguagem. O seu discurso é coeso, coerente e bonito. A sua técnica estava perfeitamente adaptada a esta linguagem e não a uma espécie de balanço entre a música popular do instrumento e o Jazz. Ele "swingava" naturalmente. Gumina figura sozinho numa categoria muito especial na história do acordeão no Jazz.

 

JD – entre os tipos de Música que pratica – da escrita à improvisada -  qual aquela onde se sente mais à vontade e prefere?

 

JB – Eu toco a música de "agora". Já toquei e toco música do período barroco, romântico ou tango argentino e outras músicas do mundo. Mas isso é uma questão de performer do instrumento e não tanto do meu trabalho em nome próprio. É necessário ao instrumentista e músico conhecer o programa do instrumento, a maior quantidade e o mais diversificado possível. Mas desde 2014 que apenas quero assinar em nome próprio a música de "agora" feita pelos músicos meus contemporâneos. Porquê? Porque acredito na música como a minha forma de expressão mais natural. A minha música é feita de improvisação e escrita. Usamos na escrita muitos elementos da composição de tradição Europeia e a improvisação é a raiz principal de toda essa mesma escrita. Não seria honesto da minha parte apresentar outro tipo de música ou outra forma de a mostrar. Acho que o músico representa-se a si mesmo na sociedade em que vive, no seu tempo e nas suas ideias justificadas. Acredito na improvisação como condição Cine Qua Non para o conhecimento maior da música e da sua criação.Enquanto músico  as minhas ideias reflectem a minha vivência numa Lisboa moderna, numa Europa sem fronteiras, de uma geração Youtube, num espaço político próprio, com leituras da teoria da música, estética e filosofia. A minha música, sendo coerente com aquilo que penso, revela as minhas posições e até alguma da minha vida pessoal.

 

 

JD – no seu segundo CD a gravar este ano 2017 que tipo de Música apresentará e que músicos estão consigo a trabalhar? para qual etiqueta será?

 

JB – O meu segundo projecto, que já foi gravado, apresenta uma música mais eléctrica onde o acordeão midi ganha principal destaque. Vai ser editado pela Inner Circle Music e Nischo e trata-se de uma edição especial com um CD gravado em estúdio e um DVD gravado o vivo na sala principal da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. As composições são todas originais e a formação é constituída por: Eduardo Cardinho (Vibrafone), Mané Fernandes (Guitarra Eléctrica), Gonçalo Neto (Guitarra Eléctrica), Ricardo Marques (Baixo Eléctrico) e Guilherme Melo (Bateria). Este é o mesmo combo que ganhou o Prémio Jovens Músicos e estou muito contente pela música ter ganho novas formas e uma vontade própria enquanto grupo. Trata-se na verdade de um side-project, é uma música muito mais específica que a do "Directions" e com uma formação bastante improvável para a música que pratico mas estou muito contente por poder partilhar os palcos nos mais importantes festivais de Jazz portugueses com estes amigos.

 

 

JD – consequências de ter tocado com Mark Turner e Avishai Cohen e Eric Harland e Carlos Bica e Miguel Zenón e Stefan Harris? individualize pf

 

JB – Acabo de chegar de uma pequena tour por Montenegro com Mike Stern. É incrível poder partilhar o palco com um músico que escreveu parte da estética moderna da guitarra eléctrica. É também um privilégio poder improvisar e negociar música num palco com alguém que admiramos. Tocando acordeão, sendo um instrumento em nada necessário à realização de uma formação jazz, tenho tido a sorte de poder tocar e viajar com os alguns dos meus ídolos absolutos nesta música: desde Greg Osby a Gil Goldstein, de Rufus Reid a Jerome Jennings, de Alex Blake a Fabrizio Cassol, de Bobby Sanaria a Carlos Bica, de Federico Malaman a Mário Laginha, de Philip Harper a Mark Colenburg, etc. De todos estes e outros músicos tenho de salientar a minha colaboração com o Greg Osby. Partilhamos de várias ideias musicais e do meio. Ambos usamos simetria nos nossas improvisações, temos um vocabulário harmónico muito parecido, já perdemos horas a discutir questões do sistema tonal e a sua relação com o Jazz e Blues. Toda a nossa vontade de um tempo pessoal forte e consistente. É um dos meus ídolos absolutos pois é um improvisado que arrisca, justifica as suas escolhas e o reestudado final é assombroso. 

 

 

JD – que me diz um jovem artista músico ter cerca de 30 1º prémios em concursos na grande maioria deles estrangeiros a Portugal?

 

JB – Os concursos ajudam à auto crítica do concorrente, preparam-no para a dura realidade que é o meio - tocar e receber uma opinião, seja ela qual for. Não tenho qualquer tipo de fascínio por concursos apesar de ter feito algumas dezenas. Noto sim, que é uma forma excelente de ser sério para com a música e para os colegas. Saber vencer um concurso é também conseguir perceber o seu nível real, o porquê da sua qualificação, respeitar os seus colegas que também tiraram as mesmas ou mais horas da sua vida e entregaram-na àquela música. É no fundo um exercício de humildade. Perceber-se que a vitória não é um dado adquirido nem a priori nem a posteriori, que uma baixa qualificação é uma opinião e uma condição obrigatória do meio musical. Ninguém é perfeito, os erros acontecem e as pessoas evoluem. Por vezes fico surpreso em perceber que a palavra "concurso" ganha uma má conotação não por aquilo que é mas pela forma como alguns concorrentes a vivenciam. Para além disso o "concurso" sério e organizado é sinal de uma sociedade intelectualmente mais desperta. É a liberdade de expressão no seu estado puro. Prestar-se fisicamente a uma prova, receber uma opinião, usá-la, refutá-la, evoluir com ela, discordar de uma pontuação, aceitar a diferença. "Dar o corpo às balas" por algo que acreditamos ser o melhor, perceber a sua pequenez e muitas vezes entender a sua fragilidade e mudar de direcção. No fundo, o concurso é uma brincadeira comparado com a afirmação pessoal enquanto artista e a coerência das nossas ideias.

 

JD – estou com Nicholas Payton: «nunca pensei em bebop tão bem em acordeão» obrigado João

 


Muito obrigado pela sua atenção.

João Barradas http://www.joaombarradas.net

 

 

 
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