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“Gosto de Jazz porque gosto da verdade” - Clube Universitário de Jazz
08-04-2017
 

“Gosto de Jazz porque gosto da verdade”


 


Clube Universitário de Jazz, a contestação e o discurso alternativo


 ao meio “jazzístico” em Portugal, entre 1958 e 1961


 


 


por Pedro Cravinho


 


 


 


Universidade de Aveiro / INET-md / Centro de Estudos de Jazz


 


pedro.cravinho@ua.pt


 


 


Abstract


 


In 1958, a group of university students established in Lisbon the Clube Universitário de Jazz (University Jazz Club) (CUJ), with the aim to disseminate Jazz music. The CUJ’s life was very short as the Public Security Police sealed it, in 1961. CUJ started its activity during a period of great social expectation, related to the possibility to change the dictatorial regime, installed in Portugal since 1933. Portugal was preparing what was supposed to be a process of “free elections” and some prior forbidden activities were now allowed. Within this context CUJ


became an alternative to the broadcasting of jazz in Portugal using it as a discourse of liberty, specially regarding the status of the Portuguese colonies in Africa. To achieve this aim CUJ published the first Portuguese jazz magazine, organized “jam-sessions”, concerts and phonograph meetings followed by collective discussion. These activities were carried out by a core group of individuals, including its founder, Raul Calado, who’s main propose was to present a non canonical musical repertoire, usually excluded from the public sphere for political reasons (Jazz, Kwela, and other African sonorities). Using the contribution of Lawrence


Grosseberg based on an understanding of the binomial hegemony / resistance as a "transformative practice", giving rise to bilateral relations and changes, (Grossberg, 1996), I will reflect on the actions of resistance carried out by CUJ, configuring Jazz as the discourse of truth


in a period of censorship and repression, and its impact on university students who have attended institutions such as the Casa dos Estudantes do Império (House of the Empire’s Students). This paper will explore further the role of jazz as an experience of "human relations ideals", capable to provide new social realities that are not yet accessible (Turino, 2008).


Palavras-chave:


Jazz, música, Clube Universitário Jazz,


Casa dos Estudantes do Império, Raul Calado.


Introdução


 Este estudo incide sobre o Clube Universitário de Jazz (CUJ) – uma associação surgida em Lisboa, em 1958 – com particular enfoque na acção de divulgação do Jazz em Portugal, entre 1958 e 1961, ano em que foi encerrado pela Polícia de Segurança Pública. O Clube Universitário de Jazz, constituído no meio estudantil, propôs-se difundir a música jazz.[i] Para a concretização deste objectivo, publicou um boletim mensal, JAZZ – Clube Universitário de Jazz, organizou “jam–sessions”, sessões fonográficas, concertos e palestras de divulgação de jazz. Por outro lado, desenvolveu outro tipo de actividades não directamente relacionadas com a divulgação do jazz, mas com propósitos de angariação de fundos e alargamento do número de sócios. Estas actividades foram levadas a cabo por um conjunto de indivíduos centrais deste clube.


Nomeadamente o seu fundador, Raul Calado, o director e editor do boletim, Pedro Valente Pereira, os colaboradores, José Duarte, Raul Vaz Bernardo, Hélder Leitão, entre outros, na sua maioria estudantes universitários na época.


Iniciando a sua actividade num período de expectativa de mudança, no que diz respeito ao contexto político e social nacional, com o General Humberto Delgado saído das fileiras do regime a juntar-se à Oposição democrática para se candidatar à Presidência da República, esta instituição foi uma alternativa a um modelo de consumo do Jazz em Portugal.


Este estudo sustenta-se na pesquisa que efectuei nos arquivos do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro, e da Torre do Tombo – (nos processos da PIDE/DGS - Serviços Centrais), e bibliotecas.


 Enquadramento teórico e problemática.


 O estudo do CUJ enquadra-se no projecto “Os Mensageiros do Jazz em Portugal no Século XX”, sob a orientação da Prof. Doutora Susana Sardo em desenvolvimento no INET-md, pólo de Aveiro / Centro de Estudos de Jazz. Trata-se por isso de um estudo em curso.


As balizas temporais e geográficas acima referidas do estudo poderão ter que ser forçosamente alargadas, no seu âmbito, de modo a incluir antecedentes e impactes que tenha tido. Relativamente aos antecedentes, refiro-me à identificação de linhas de força que tenham conduzido à constituição do CUJ.


Apesar da curta duração do CUJ, esta instituição foi uma alternativa a um modelo de prática e consumo do Jazz em Portugal cultivado, por exemplo pelo Hot-Clube de Portugal (HCP).


Contudo, o CUJ não foi apenas um agente de divulgação do Jazz em Portugal junto de estudantes universitários. A pesquisa que tenho vindo a efectuar aponta para outras dimensões, nomeadamente para o fomento de ideais de contestação politica.


Deste modo, as questões que coloco são as seguintes:


Em que medida o quadro politico nos finais dos anos 1950, propiciou a emergência do CUJ?


De que forma é o que o CUJ se distanciou dos modelos existentes do consumo do Jazz em Portugal?


Como se fez a difusão dos ideais políticos e sociais em dissonância com o regime vigente nas sessões de divulgação do Jazz promovidas pelo CUJ junto dos estudantes universitários?


Qual foi o papel dos seus fundadores nesse processo?


 Começo por fazer uma breve síntese sobre o quadro político e social que se viveu em Portugal no ano de 1958, durante a governação de Oliveira Salazar, caracterizado por uma grande agitação social, provocada pela candidatura do general Humberto Delgado às eleições presidenciais e que sobressaltou o regime do Estado Novo. Prosseguindo depois, para uma análise da actividade “jazzística” em Portugal durante o período compreendido entre 1956 e 1961, época da actividade o Clube Universitário de Jazz em Lisboa, que constitui a base deste estudo.


Por fim analiso o papel do CUJ na divulgação do Jazz nos meios universitários.

 

Ascensão e queda de uma ideia de viragem política em Portugal, em 1958.


 Em Portugal em finais da década de 1950 assiste-se a uma ideia de viragem política. Com as eleições presidenciais de 1958 em Portugal, e mais concretamente a candidatura da Oposição Democrática liderada pelo general Humberto Delgado, pela primeira vez desde das últimas eleições realizadas em Portugal (1948), é visível uma convergência entre as diferentes correntes da oposição ao Estado Novo. O carisma de Humberto Delgado, um general saído das fileiras do regime, provocou um enorme movimento de adesão por parte da população portuguesa nos mais diversos sectores da sociedade, colocando de imediato em sobressalto o regime de Oliveira Salazar. Ao mesmo tempo levou a que novas forças se mobilizassem e participassem na oposição ao Estado Novo. Levantaram-se vozes discordantes entre grupos monárquicos, que incluíam antigos integralistas e nacionais-sindicalistas, e católicos, como o caso de D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, que a 13 de Julho de 1958, dirigiu a célebre carta a Oliveira Salazar, vindo a originar longos anos no exílio (Rosas 1994:528). Mas a campanha eleitoral para as presidenciais de 1958, mobilizou também para a luta política sectores militares do regime que mantiveram contactos com as estruturas de apoio à candidatura do general Humberto Delgado. O lançamento da candidatura foi a 10 de Maio de 1958, no café Chave d' Ouro, em Lisboa, e ficou marcada por uma pergunta feita a Humberto Delgado pelo correspondente em Lisboa da France Press, Lindorfe Pinto Basto sobre que atitude é que tomaria para com o Presidente do Conselho Oliveira Salazar, caso fosse eleito. Humberto Delgado de uma forma enérgica e sem hesitação disse: "Obviamente, demiti-lo-ei" (Delgado 1974:176).


A resposta levantou um clamor de entusiasmo por toda a sala repleta do café Chave d’ Ouro, e a frase criou um impacto tremendo na sociedade portuguesa, representando um pensamento de muitas pessoas, que durante anos o mantinham secretamente, e que devido ao medo jamais tinha sido expresso desta maneira, com tanta visibilidade.


A frase com que Humberto Delgado prometia demitir Salazar se ganhasse as presidenciais em 1958, é uma das mais célebres da política portuguesa, transformando a figura do general Humberto Delgado no "General sem Medo".


 


O Clube Universitário de Jazz – O CUJ .


 


O panorama político vivido em Portugal no ano de 1958, como foi referido atrás, veio reforçar uma intenção de mudança que se fez sentir no meio cultural português, levando também a um aumento significativo e diversificado de actividades em volta do Jazz. Em Portugal a música Jazz nunca se enquadrou no modelo polarizado da política cultural do Estado Novo, desde a sua criação. Esse modelo tradicionalista e conservador, considerava apenas os pólos Erudito versus folclórico, subestimando toda a realidade musical que passava no meio, inclusive o Jazz. É neste contexto de mudança, no seio das Associações Académicas de Lisboa, que surge nos inícios de 1958, o Clube Universitário de Jazz – CUJ .


 Protagonistas e acontecimentos.


 Dos principais protagonistas da importante e curta, mas “intensa” história do CUJ, destaco a figura central da fundação deste clube, Raul Calado . A decisão tomada por Raul Calado para a criação de uma alternativa ao único clube de Jazz existente até à data em Portugal, o HCP, do qual era sócio e fez parte dos seus quadros, surge como consequência do seu afastamento após ter perdido as eleições para a Direcção do HCP em 1958.[ii] As divergências entre Raul Calado e a Direcção do HCP, prendiam-se com o facto, de pretender fazer algumas mudanças no seu modo de funcionamento de forma a impulsionar uma maior abertura do clube, deixando de ser um clube restrito. Sobre esta iniciativa levada a cabo por Raul Calado, Luís Villas-Boas referiu o seguinte:

O C.U.J. surgiu como uma alternativa ao Hot através do Raul   Calado, que era secretario da Direcção do Hot e que resolveu sair e     fazer um clube universitário de jazz, coisa que eu aliás apoiei:    achava que era uma ideia muito boa haver um clube no meio    universitário.[...] O C.U.J. pretendia ser mais intelectual e achei   bem e inclusivamente fiz-me sócio (Paes 1984:36).

Outra das figuras principais do CUJ, José Duarte, teve o primeiro contacto com Raul Calado, numa sessão fonográfica sobre jazz, a que assistiu no Instituto Superior Técnico em Lisboa


[...] estava lá o Raul Calado, estava lá muita gente, ele pôs discos,             explicou o que era o jazz e tal, e no fim disse, vamos fundar um             Clube Universitário de Jazz. Quem quiser assina aqui para             pertencer a Comissão Organizadora. Ele assinou e eu assinei a             seguir [...] e aí fundamos um Clube (Sardo 2005).

Com a Comissão Organizadora criada, iniciou-se um novo clube de Jazz em Lisboa. Teve a sua sessão inaugural no Cinema Roma, a 2 Maio de 1958. Esta sessão foi anunciada dias antes na rubrica “Vida Musical” do Diário de Lisboa, em 30 de Abril 1958:

Clube Universitário de jazz Para a inauguração das actividades do   Clube Universitário de Jazz realiza-se na próxima sexta-feira pelas    18h30, no Cinema Roma, uma audição de música jazz (discos)   discussão e critica, e, eventualmente, leitura de livros e revistas da  especialidade (S.a. 1958:11).

A Comissão Organizadora do CUJ, iniciou depois a procura de uma sede para o clube, que viria a encontrar meses mais tarde, na Rua da Alegria n.º 76, curiosamente uns metros acima do HCP, situado na Praça da Alegria, na cave do n.º 39.

A notícia da sua sede, foi divulgada aos sócios em Novembro:

Esperamos tanto tempo por esta notícia, trabalhamos tanto para   realiza-la, que agora nem sabemos como redigi-la. A sede do CUJ é   na Rua da Alegria, 76, em Lisboa mesmo a 5 metros do Portão do   Jardim Botânico. Gostaríamos de ser capazes de vos transmitir a  emoção que nos tomou quando antevimos as possibilidades desse   enorme armazém [...] Vem à sede, e ajuda-nos a fazer do CUJ uma  formidável organização universitária (S.a. [1958]:1).

Estavam criadas as estruturas necessárias para o funcionamento do CUJ, cuja actividade principal, era a divulgação e estudo da música jazz. Este novo clube, para além da mera divulgação do jazz, organizou bailes, concertos, sessões fonográficas, chegando a efectuar uma sessão de divulgação de jazz e kwella, junto da comunidade estudantil da Casa dos Estudantes do Império. Um dos concertos noticiado na imprensa foi o da Orquestra de Claude Luter, em 24 de Maio de 1959, no Cinema Império.


 


A primeira publicação periódica em Portugal dedicada ao Jazz – Boletim JAZZ

Com a criação do CUJ surgiu também a iniciativa do lançamento da primeira publicação periódica em Portugal inteiramente dedicada à divulgação da música Jazz. Tendo como objectivo principal, ser o órgão informativo dos sócios, divulgar e estudar a música Jazz, o seu primeiro número foi publicado em Agosto de 1958.

Tratou-se de uma comunidade jovem, desejosa de “ouvir” e “saber” sobre jazz que se organizou e imaginou no quadro a que refere Benedict Anderson, de um espaço privilegiado para a construção de uma comunidade imaginada.

Com o aparecimento deste novo espaço, na imprensa escrita em Portugal, dedicado a uma temática própria e única, estão criadas as condições para a construção de uma identidade colectiva. Neste enquadramento, face às transformações político-sociais, em que Portugal estava envolvido, foi possível obter um espaço próprio, direccionado para outra música, o Jazz. Com uma associação identitária, a esta comunidade imaginada, os leitores, conscientemente, passavam a fazer parte integrante de um todo, tendo a música Jazz, como denominador comum, em que a revista JAZZ, era essencial, para a transmissão dos seus ideais, em termos de simultaneidade.


Autorização do Secretariado Nacional de Informação para a publicação do boletim do CUJ.

Para este efeito e de acordo com o processo (ANTT/SNI-DSC/24/210) dos Serviços de Censura consultado, o seu proprietário, administrador e editor, Pedro Manuel Valente Pereira, submeteu a autorização para a publicação deste periódico mensal, ao director dos Serviços de Censura no dia 19 de Julho de 1958. Um segundo pedido é submetido novamente ao director dos Serviços de Censura, a 29 de Julho de 1958, depois do Capitão Santana Crato destes serviços, ter informado o CUJ da existência de um impeditivo a um despacho favorável, por se tratar de um clube em organização. A resposta a este segundo pedido, é dada em 6 de Agosto de 1958, pelos Serviços de Censura, com a autorização para a publicação do boletim intitulado JAZZ, ficando ainda dispensado de censura prévia e de qualquer outra formalidade perante estes serviços.

Análise dos conteúdos do Boletim Jazz – CUJ.

Ao todo foram publicados 10 números, uns mensais e outros bimensais. O boletim mensal tinha entre 10 e 12 páginas, e o bimensal podia chegar às 24 páginas. No que diz respeito ao seu conteúdo, dedicado inteiramente ao jazz, tinha essencialmente uma preocupação formativa, revelando um interesse principal na formação de um público esclarecido sobre jazz. Um outro aspecto importante a destacar, foi pelo facto desta publicação ter sido dispensada pêlos Serviços de Censura, da sua apresentação à censura prévia, poder divulgar e associar-se, aos movimentos dos afro-americanos na luta pelos seus direitos civis, nos Estados Unidos da América, sem sofrer cortes.[iii]

O Jazz como expressão de ideais políticos.

No seio do CUJ, a divulgação do jazz surge também como um veículo de revindicação de mudança, como um elemento aglutinador de diferenças e particularismos entre os seus elementos. Foi uma forma de união de jovens empenhados na mudança, propiciando uma consciência colectiva que os mobilizava a romper com princípios sociais e políticos vigentes, e que tinham na música uma forma de o conseguir. Juntamente com as sessões fonográficas dedicadas ao Jazz, protagonizavam outras acções que tiveram um papel importantíssimo de contestação ao regime, e de passagem de propaganda subversiva.

Muitos de nós fazíamos sessões fonográficas – em associações   culturais, associações de estudantes [...] para divulgar a música,  mas ao mesmo tempo que se divulgava a música, divulgava-se a    luta dos negros. Isto tinha associações com o colonialismo, e    portanto digamos que era uma forma de fazer subversão...             (Martins 2006:169).

As sessões fonográficas dedicadas ao Jazz, organizadas pelo CUJ, muitas vezes inscreviam também subliminarmente a contestação às politicas colonialistas do Estado Novo.

Actividades desenvolvidas pelo CUJ em outras associações como a Casa dos Estudantes do Império.

Ao analisar as actividades desenvolvidas pelo CUJ junto de outras associações, é notória a sua presença junto da Casa dos Estudantes do Império (CEI). Esta escolha prende-se não só com a sua génese, a relação de um conjunto de países reunidos num espaço político único, o Império Colonial Português, assim como com a importância que teve como espaço de debate e consciencialização associado aos movimentos independentistas nas antigas colónias portuguesas. Ao longo da minha investigação encontrei registos sessões fonográficas, organizados por Raul Calado na Casa dos Estudantes do Império, e que foram anunciadas na suas publicações.

A Casa dos Estudantes do Império foi fundada em Junho de 1944, tendo começado a sua actividade em Outubro, desse mesmo ano. O governo português ao apoiar a sua criação, serviu-se na fase inicial, como prolongamento da política ultramarina e formação de elites. Para além deste aspecto, foi uma forma de fundir numa só associação, as várias associações representativas de grupos de estudantes universitários oriundos de Angola, Cabo Verde, Macau, Índia e Moçambique, que se vinham a fundar desde finais de 1943 em Lisboa. Ao regime não agradava a ideia de dispersão destes jovens por diferentes associações, em função da sua colónia de origem, assim como esta realidade contrariava a ideia de “unidade de Nação Portuguesa” que servia de propaganda do regime. (Rosas 1996:130). Tratou-se essencialmente de um espaço de debate e consciencialização, representativo da vida social, politica e cultural de uma comunidade transcontinental em solo português, tendo em comum a língua portuguesa e que manteve a sua actividade até meados da década de 1960. Através de uma acção da Polícia Política Portuguesa, esta associação encerrou em Setembro de 1965, já num período de guerra colonial.


Ao longo da sua existência, apenas por duas vezes o regime do Estado Novo, instaurou comissões administrativas que ocuparam a direcção da CEI. Dos vários elementos, que fizeram parte das diversas direcções da CEI, a titulo de exemplo, recordo a presença de um vice-presidente, um estudante de Agronomia nascido na Guiné, Amílcar Cabral, o futuro líder do Partido Africano da Independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Através das suas publicações, a Mensagem e o Boletim, depois de 1958, é possível compreender o grau de consciência cultural, cívica e politica dos seus estudantes. Na CEI foram criadas condições de afirmação e de identidade própria nos seus elementos, constituindo uma tomada de consciência que estiveram na base das actividades independentistas nas colónias portuguesas.


Pela CEI passaram muitos dos intelectuais e políticos que fomentaram essas lutas pela independência. Foi no seio desta associação que o jazz, através do CUJ, esteve presente como é referenciado no seu Boletim, em actividades de divulgação.


Ao associarem, o contributo que o Jazz teve nos processos de luta pelos direitos civis e a emancipação dos afro-americanos, face a supremacia branca nos E.U.A., os elementos do CUJ, vivificavam estes ideais, nos jovens estudantes dos territórios ultramarinos, estimulando uma consciencialização colectiva associada a ideais de mudança.


 


Conclusão


 


Em Portugal, as ligações dos Movimentos Associativos com a música Jazz


iniciam-se em finais da década de 1950, com a fundação do Clube


Universitário de Jazz (CUJ). Para além de diversas actividades de carácter cultural que se desenvolviam no CUJ, em destaque as sessões fonográficas, existiam outras, camufladas, que tiveram um papel importantíssimo em acções de subversão do regime. As sessões fonográficas dedicadas ao Jazz, pêlos seus membros inscreviam subliminarmente a contestação ao regime.


Produzindo um binómio hegemonia/resistência enquanto “prática transformativa” geradora de relações e mudanças bilaterais (Grossberg 1996).


Foi uma forma de união dos jovens empenhados na mudança, propiciando uma consciência colectiva, resultando num espaço privilegiado para a construção de uma comunidade imaginada, (Anderson, 2005) que os mobilizava numa tentativa de romperem com os princípios vigentes sociais e políticos.


O jazz teve neste quadro da acção do CUJ, enquanto experiência de “relações humanas ideias”, um papel capaz de propor a configuração de realidades sociais que ainda não existiam (Turino, 2008).


 


Bibliografia


 


Anderson, Benedict (2005) Comunidades Imaginadas. Lisboa: Edições 70.


Calado, Raul (1959) “Porque gosto de Jazz” in JAZZ – Boletim do Clube


Universitário de Jazz. 7 e 8: 10-11.


Delgado, Humberto (1974) Memórias. Lisboa: Edições Delfos.


Performa ’11 – Encontros de Investigação em Performance Universidade de Aveiro, Maio de 2011


Grossberg, Lawrence (1996) “Identity and Cultural Studies – Is that all there is?” in Questions of Cultural Identity, ed. Hall, Stuart and Du Gay, Paul. London: Sage Publications Ltd.


Martins, Hélder (2006) O Jazz em Portugal (1920-1956) Anúncio – Emergência – Afirmação. Coimbra: Almedina


Paes, Rui Eduardo (1984) “Luís Villas-Boas: ‘Começámos com o Festival com um grande atraso’” in Revista Expresso, 10 de Novembro: 36-37


Rosas, Fernando (1994) “As ‘mudanças invisíveis’ do pós-guerra” in História de Portugal, Vol. VII, dir. José Mattoso, I.ª ed. Lisboa: Círculo de Leitores


Rosas, Fernando e Brito, J. M. Brandão de (dir.) (1996), Dicionário de História do Estado Novo, Volume I A-L, Bertrand Editora, Lda.


Sardo, Susana (2005) José Duarte a solo. DVD. Aveiro: Universidade de Aveiro.


S.a (1958) “Vida Musical – Clube Universitário de Jazz” in Diário de Lisboa. 38 (12714):11.


S.a (1958) “A nossa sede” in JAZZ – Boletim do Clube Universitário de Jazz. 4:1.


Turino, Thomas (2008) Music as Social Life: The Politics of Participation.


Chicago: The University of Chicago Press.


 


Notas biográficas


 


Licenciado em Música / variante de Musicologia pela Universidade de Aveiro, actualmente frequenta o Programa Doutoral em Música, especialidade em Etnomusicologia (Jazz Studies) na mesma instituição.


Investigador no Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro (CEJ-UA) e Instituto de Etnomusicologia – Estudos em Música e Dança (INET-md) – Pólo da Universidade de Aveiro, e membro da International Society for Jazz Research. Colaborador no âmbito do projecto “Mensageiros do Jazz”, dedicado aos divulgadores do jazz em Portugal durante o século xx. Lecciona a Unidade Curricular “Jazz em Portugal” na Universidade de Aveiro.


Actualmente os seus interesses de pesquisa centram-se nas àreas dos Jazz Studies e Media Studies, estudando a correlação entre o jazz e a Radiotelevisão Portuguesa durante o regime do Estado Novo (1956-1974).


Recentemente publicou “A MÚSICA AGORA É O JAZZ: O Jazz como palco de resistência em Portugal, entre 1971 e 1973” in Música Discurso Poder (2012).


 

Notas:




[i]

Sobre o encerramento do Clube Universitário de Jazz, no ano de 1961, pela Policia Portuguesa, no âmbito das minhas pesquisas nos Arquivos da Torre do Tombo – Processos PIDE/DGS e documentação do Governo Civil de Lisboa, até ao momento não consegui identificar nenhum documento que possa testemunhar este processo. A minha sustentação baseia-se na entrevista cedida por José Duarte a Susana Sardo (2005) assim como no trabalho de Hélder Martins (2006:196).

Uma opinião oposta a esta, foi a versão que Luís Villas-Boas defendia acerca do encerramento do CUJ, segundo ele “E aquilo que as pessoas alegam de ter sido fechado pela Pide por ser um clube de revolucionários, na verdade foi fechado por economicamente ter deixado de ser viável. Não vale a pena estarmos a pôr uma auréola de revolucionarismo a um clube que fechou por falta de dinheiro, embora ele tivesse de facto revolucionários. Como no Hot, aliás” (Paes 1984:36).

 

[ii]

Raul Calado fez parte dos Corpos Gerentes do Hot Clube de Portugal nos seguintes anos:

1955 - 2º Vogal do Conselho Directivo e Delegado efectivo à Federação das Sociedades e Recreio;

1956 - 1º Secretário da Assembleia Geral e Delegado efectivo à Federação das Sociedades e Recreio;

1957 - Secretario do Conselho Directivo.

 

[iii]

Um texto que reflecte este posicionamento é o poema de Langston Huges intitulado PROEM, traduzido para português, que reflectia a condição do negro, enquanto escravo ao longo da sua existência.

 

 

Sobre o encerramento do Clube Universitário de Jazz, no ano de 1961, pela Policia Portuguesa, no âmbito das minhas pesquisas nos Arquivos da Torre do Tombo – Processos PIDE/DGS e documentação do Governo Civil de Lisboa, até ao momento não consegui identificar nenhum documento que possa testemunhar este processo. A minha sustentação baseia-se na entrevista cedida por José Duarte a Susana Sardo (2005) assim como no trabalho de Hélder Martins (2006:196).

 

Uma opinião oposta a esta, foi a versão que Luís Villas-Boas defendia acerca do encerramento do CUJ, segundo ele “E aquilo que as pessoas alegam de ter sido fechado pela Pide por ser um clube de revolucionários, na verdade foi fechado por economicamente ter deixado de ser viável. Não vale a pena estarmos a pôr uma auréola de revolucionarismo a um clube que fechou por falta de dinheiro, embora ele tivesse de facto revolucionários. Como no Hot, aliás” (Paes 1984:36).

 

 

 

[1]

 

Raul Calado fez parte dos Corpos Gerentes do Hot Clube de Portugal nos seguintes anos:

 

1955 - 2º Vogal do Conselho Directivo e Delegado efectivo à Federação das Sociedades e Recreio;

 

1956 - 1º Secretário da Assembleia Geral e Delegado efectivo à Federação das Sociedades e Recreio;

 

1957 - Secretario do Conselho Directivo.

 

 

 

[1]

Um texto que reflecte este posicionamento é o poema de Langston Huges intitulado PROEM, traduzido para português, que reflectia a condição do negro, enquanto escrav

 
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